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Menarue 18-06-2012, 18:54
HRC1947 18-06-2012, 19:55
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FBrito 19-06-2012, 22:05
A. Luciano 20-06-2012, 12:59
RE: a Ordem da Jarreteira e as Guerras das Rosas »
Anachronico 20-06-2012, 22:58
kolon 18-06-2012, 21:15

RE: a Ordem da Jarreteira e as Guerras das Rosas 20-06-2012, 22:58
Autor: Anachronico      [responder para o fórum]
Caro A. Luciano,


Felizmente existe uma razão tão natural para as eleições de D. João II como para a do Infante D. Pedro. Como a historia é bastante interessante e provavelmente haverão outros confrades que não a conhecem, posso contá-la:

Como sabe em 1399 Henry of Bolingbroke, filho do duque de Lancaster John of Gaunt, e assim irmão de Philippa de Lencastre e tio dos infantes da Inclita Geração, usurpou o throno ao depor o seu primo Richard II.

N'esse mesmo anno de 1399 foram os três filhos mais novos do usurpador ― Thomas, mais tarde duque de Clarence [†1421]; John, duque de Bedford [†1435]; e Humphrey, duque de Gloucester [†1447]― armados cavalleiros. E logo no anno seguinte foram os três feitos cavalleiros da Jarreteira. N'esse anno de 1400 foram ainda três dos mais importantes partidarios do usurpador feitos cavalleiros da Jarreteira: o XII conde de Arundel, que como se sabe casou como a filha bastarda de D. João I D. Beatriz em 1405; o XIII conde de Warwick; e ainda o bastardo de John of Gaunt que mencionei anteriormente, Thomas Beaufort, que ao morrer em 1426 deixou a sua cadeira vaga, o que veio a favorecer o seu sobrinho, o Infante D. Pedro.

É assim importante lembrar que Henry of Bolingbroke, esse filho da Casa de Lancaster, usurpou o throno já depois do nascimento de D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique. E é tambem importante ver que as ligações entre os monarchas e infantes portugueses com a casa real da Inglaterra na primeira metade de Quatrocentos eram, na realidade, ligações com a Casa de Lancaster que usurpara o throno. Julgo não ser necessario lembrar aqui todos os partidarios de Richard II executados em 1399.

Com os acontecimentos de 1399 deixou o throno de Inglaterra de ser sacrosancto. Grande parte do seculo XV inglês soffreu as consequencias d'essa usurpação: guerra fria durante os fortes Henry IV e Henry V, e guerra aberta durante o fracco Henry VI.

Quando o primo dos nossos infantes da Inclita Geração Henry V morreu em 1422, o seu filho e successor Henry VI tinha menos de um anno de idade. Toda a infancia d'este rei foi assim uma longa regencia, em que a Casa de Lancaster e os seus primos da Casa de York dividiam o poder. Mas graças ao dous irmãos de Henry V ainda vivos, os poderosos duques de Bedford e de Gloucester ― o primeiro chefe de operações em França na epocha de Jeanne d'Arc, onde chegou a ver Henry VI ser coroado rei em Paris em 1431; o ultimo Protector do Reino ― manteve-se a Casa de Lancaster firmamente no poder durante a minoridade de Henry VI.

Em 1435 morreu o duque de Bedford. O jovem rei iniciou o seu governo pessoal em 1437, mas mostrou ser um rei fracco e facilmente dominado. E em 1447 morreu o seu outro tio, o duque de Gloucester. Mais uma vez é importante lembrar como todos os portugueses feitos cavalleiros da Jarreteira até então, com a notavel excepção de Alvaro Vaz de Almada [que ainda assim era uma figura central da casa do Infante D. Pedro] eram parentes proximos ― primos ― dos reis da Casa de Lancaster.

A morte do duque de Gloucester em 1447 marca o inicio da ascensão da Casa de York. Em 1453 o rei ficou catatonico, e Richard, III duque de York, foi declarado Protector do Reino. Quando o rei voltou a si em 1455 e annulou as decisões entretanto tomadas pello duque de York, estalou a guerra aberta. Esta é a primeira phase das Guerras das Rosas. No penultimo dia de 1460 o duque de York morreu na batalha de Wakefield; mas o seu filho destroçou as hostes de Lancaster na batalha de Towton em 1461 e foi coroado rei como Edward IV ― o primeiro da Casa de York.

Henry VI da Casa de Lancaster chegou a ser brevemente restaurado como rei de Inglaterra em 1470; mas os seus partidarios foram completamente desbaratados em Tewkesbury em 1471. Sobre Henry VI escreve certo historiador inglês que aquelle que poderia ter sido um grande rei foi possivelmente o peor de todos os monarchas ingleses. Apesar do seu character fracco Henry VI tinha interesse pellas Lettras: foi elle quem fundou o collegio de Eton e o King's College em Cambridge, entre varias outras fundações, e outra epocha teria appreciado melhor as suas qualidades. Mas para reinar a Inglaterra de meados de Quatrocentos era necessario uma mão de ferro, e Henry VI não herdou nenhuma da bravura militar que characterizava os outros varões da Casa de Lancaster, e até mesmo o seu formidavel filho, morto em Tewkesbury. Merece menção o facto de que Henry VI fora aprisionado pellos Yorkistas antes de Tewkesbury e mantido na Torre de Londres; e apenas depois da morte do seu filho foi o inutil rei morto. Henry VI herdou a França e a Inglaterra e perdeu ambos os reinos; e a Casa de Lancaster, que subira ao throno pella espada, perdeu o throno pella espada.

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D. João II foi feito cavalleiro da Jarreteira em 1382, na phase final do turbulento reinado do primeiro rei da Casa de York. Mas não chegou a ser installado. Veremos agora a razão.

Depois de se ser eleito cavalleiro da Jarreteira esperava-se que o cavalleiro fosse investido em cerimonia na cappella de Windsor, onde tomaria o seu lugar na devida cadeira e veria as suas armas collocadas sobre a cadeira. De principes estrangeiros esperava-se que mandassem um representante, tal como era feito por exemplo no caso de casamentos por procuração. Por isso poderia passar bastante tempo entre eleição e a investidura; no caso que citei do rei Erik VII da Dinamarca, Noruega e Suecia passaram assim cinco annos antes que o rei enviasse um representante.

Em Maio de 1383 morreu Edward IV, sem que D. João II tivesse enviado algum representante; era assim cavalleiro eleito apenas.

O herdeiro de Edward IV era o seu filho Edward V, de treze annos. Este tinha ainda um irmão menor, Richard of Shrewsbury, de dez annos.

O irmão de Edward IV, Richard, duque de Gloucester, foi nomeado Protector do Reino durante a menoridade do sobrinho. E antes mesmo que o jovem principe herdeiro fosse coroado rei o duque de Gloucester declarou o segundo casamento do seu irmão invalido. Como consequencia os dous filhos de Edward IV seus sobrinhos eram agora considerados illegitimos ― e o proprio duque de Gloucester seu tio era assim o legitimo herdeiro ao throno. Por causa da situação tensa no reino os pequenos principes foram n'esse mesmo Verão de 1483 enviados para a Torre de Londres para sua protecção. Estes são os famosos Principes da Torre, vistos a ultima vez em Agosto de 1483 e desaparecidos mysteriosamente sem deixar rastro.

Por causa d'esta evolução foi a eleição de D. João II declarada invalida. O confrade A. Luciano escreve:

"Mas fiquei com curiosidade de saber a que se deveu a anulação da primeira eleição de D. João II. Nenhum dos 4 seguintes investidos em 1483 me pareceu de tal forma importante que houvesse urgência em asssegurar uma vaga."
[http://www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=308662]

Mas como pode agora ver os cavalleiros da Jarreteira não era feitos honoris causa como hoje; eram uma recompensa, uma confirmação de uma alliança politica e militar muito real; eram um instrumento do poder. Se apenas se olhar para os titulos os quatro nobres de que fala parecem de facto ser insignificantes. Mas qualquer analyse mostrará a sua importancia. Sem querer cansar o confrade com uma longa analyse, veja quem eram esses quatro nobres de que fala, feitos cavalleiros da Jarreteira n'esse mesmo anno de 1483:

1) Francis Lovell, I visconde Lovell ― um dos mais importantes alliados de Gloucester
2) Thomas Howard, I conde de Surrey ― idem
3) Richard Ratcliffe ― idem
4) Thomas Stanley, I conde de Derby ― nobre de lealdades dividas, feito cavalleiro da Jarreteira em vez do executado Hastings, n'uma tentativa de reconciliação com certas facções da corte.

Toda esta politica de recompensas é totalmente analoga ao que se passou em 1399 aquando da usurpação do throno por Henry IV. E para alem d'estes temos tambem um exemplo do outro lado da medalha: Thomas Grey, filho da segunda mulher de Edward IV ― cujo matrimonio o duque de Gloucester como vimos annulou ― foi degradado em 1483.

O reinado de Gloucester como Richard III foi curto: em 1485 morreu na batalha de Bosworth contra Henry Tudor, cuja mãe era uma Lancaster, e com essa batalha as Guerras das Rosas chegaram ao fim. E logo n'esse anno de 1485 os dous primeiros supracitados, Francis Lovell e Thomas Howard, foram tambem degradados pello primeiro rei da dynastia Tudor, enquanto Thomas Grey foi restaurado. Mais tarde tambem Thomas Howard foi restaurado em 1489. E D. João II, precisamente o ultimo cavalleiro a ter sido eleito antes da morte de Edward IV que iniciou todo este processo, foi reeleito ― e não restaurado ― como sabemos em 1488.

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Peço perdão se a minha explicação foi um pouco longa; mas sabe que quando escrevo gosto de deixar as cousas bem explicadas. E como me perguntou obteve resposta. Espero que possa assim ver que todas as nomeações dos principes portugueses da primeira metade de Quatrocentos estão de uma ou outra forma relacionadas com a usurpação do throno por um filho da Casa de Lancaster em 1399 e com os conflictos que se seguiram. Durante a primeira metado do seculo vemos os resultados da alliança entre os principes de Avis e a Casa de Lancaster, e o caso das eleições de D. João II está já directamente relacionado com a phase final das Guerras das Rosas.


Cumprimentos,
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