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Anachronico 18-04-2012, 21:11
A. Luciano 19-04-2012, 00:25
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kolon 22-04-2012, 04:06
Mavasc 22-04-2012, 08:20
kolon 23-04-2012, 01:46
Mavasc 23-04-2012, 10:27
RE: os narizes de Cleopatra »
Anachronico 22-04-2012, 09:14
fertelde 22-04-2012, 17:33
A. Luciano 22-04-2012, 15:40
Hirão 23-04-2012, 03:02
kolon 23-04-2012, 01:14
fertelde 23-04-2012, 16:19
Anachronico 23-04-2012, 19:33
fertelde 23-04-2012, 16:35
fertelde 23-04-2012, 21:24
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Anachronico 24-04-2012, 17:20
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josemariaferreira 24-04-2012, 20:14
Anachronico 24-04-2012, 20:28
fertelde 25-04-2012, 01:29
fertelde 25-04-2012, 01:36
Anachronico 25-04-2012, 08:05
kolon 24-04-2012, 14:57
Mavasc 22-04-2012, 17:35
kolon 23-04-2012, 01:11
Mavasc 23-04-2012, 09:36
fertelde 23-04-2012, 18:11
fertelde 23-04-2012, 17:48
Mavasc 22-04-2012, 17:48
fertelde 23-04-2012, 18:00
Mavasc 23-04-2012, 18:08
fertelde 23-04-2012, 19:13
fertelde 23-04-2012, 21:41
Mavasc 23-04-2012, 20:45
fxcct 23-04-2012, 11:12
Mavasc 23-04-2012, 11:55
fxcct 23-04-2012, 13:47
Mavasc 23-04-2012, 14:13
Anachronico 23-04-2012, 13:23
kolon 23-04-2012, 16:25
fertelde 23-04-2012, 18:54
coelho 24-04-2012, 22:45
josemariaferreira 24-04-2012, 23:19
Mavasc 24-04-2012, 10:53
kolon 19-04-2012, 22:27
Mavasc 19-04-2012, 23:09
tmacedo 19-04-2012, 23:05

RE: os narizes de Cleopatra 22-04-2012, 09:14
Autor: Anachronico      [responder para o fórum]
Caro confrade Fernando de Telde,

Entendo perfeitamente a sua attitude se apenas leu este topico. No entanto, fui bem explicito ao primeiro abordar a questão no meu topico "Manuel Rosa: commentarios à sua methodologia (...)", que não sei se leu, pois como diz esteve ausente:

"Caros confrades,
Tenho lido com interesse as discussões sobre a(s) these(s) do Colombo lusitano. Não porque o thema me interesse, mas apenas por uma questão de methodologia (...) Quanto à these do Colombo lusitano proposta por Manuel Rosa, tenho apenas observado o methodo de argumentação e a methodologia proposta pellos respectivos opponentes; a these em si nada me interessa: que seja Colombo grego ou romano."
[http://www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=301163#lista]

Sempre deixei isto bem claro. A questão da nacionalidade de Colombo não me interessa minimamente, e iniciei os meus commentarios apenas porque me pareceu que faltava um pouco de abstracção theoretica aos debates Columbinos, afinal o unico grande thema ainda debatido no forum. Não o faço por querer attaccar Manuel Rosa, mas por a sua argumentação infelizmente ser um excellente exemplo de fallacias de logica e percepções erradas. Aproveitei agora para, ao responder às allusões do confrade Luciano sobre os "historiadores vaidosos", fazer algumas pequenas observações sobre a "realidade da historiographia" que talvez nem todos conheçam. É tudo.

Quanto à minha characterização de Manuel Rosa como um "terrorista", poderá entender que se trata de uma analogia ao espectro politico. Assim, ao posicionar o confrade Rosa n'um hypothetico "radical extremo-hermeneutismo", apenas me refiro ao mesmo typo de activistas que não respeitam as regras do systema politico e seguem as suas proprias interpretações extremas de forma radical. O que equivale ao que Manuel Rosa faz no campo da historia n'este forum e no seu blog, onde sem respeito pellas regras scientificas de investigação segue uma linha de pensamento interpretativo extremo. Comparei ainda o confrade Rosa n'outra mensagem a um alchimista no seu laboratorio, referindo-me às transmutações heraldicas que este propõe, e volto aqui tambem a repetir essa analogia, que tal como a primeira não se refere a Rosa como pessoa mas, como disse no inicio, apenas à sua methodologia.

Quanto à sua opinião sobres as diversas escholas theoricas da historiographia tem absolutamente razão: cada eschola tem as suas virtudes e defeitos. Apenas quis notar que o publico nacional, por estar habituado à tradição synthetica, talvez nem sempre se aperceberá bem da real extensão das virtudes e defeitos d'essa mesma [unica?] tradição que conhece. Como n'outros aspectos, é frequentemente no encontro com o estranho que nos descobrimos a nós proprios. E a these de Manuel Rosa bem precisa d'esse outro ponto de vista. Tudo o que quis escrever se resume a isto.

_____________________________


Mas como o confrade Fertelde me pede, eu posso dar-lhe uma especie de resposta. Vou assim commentar uma phrase interessantissima que Manuel Rosa me escreveu que tem relevancia n'este topico:

"Aceito a sua critica ao meu método de argumentar neste tópico, não o faço da melhor forma. O facto é que eu li coisas que não eram lógicas e fui em busca das provas que as tornassem lógicas (...)"
[http://www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=301900#lista ]


Esta reacção do nosso confrade é absolutamente comprehensivel; é mesmo louvavel. Mas raramente é a historia tão logica como muitos julgam. Partindo do principio que Manuel Rosa realmente accredita no que escreve, eu entendo de certa forma a sua posição. Accredita ver incoherencia nas provas do Colombo ligure. Como o confrade Fertelde pode imaginar eu vejo, em certos aspectos, outra realidade. Mas uma differença fundamental entre a realidade anachronica e a realidade rosa é esta: perante o documentalmente inexplicavel, eu contento-me com o mysterio. E aceito. Desde o mysterio do polyptycho de São Vicente ao genio de um Newton ou um Mozart, a historia está cheia do inexplicavel, de mysterios, do genio humano. E isto é importantissimo, porque tem que ver exactamente com a tal phrase de Rosa: "O facto é que eu li coisas que não eram lógicas e fui em busca das provas que as tornassem lógicas." A exaggerada tentativa de encontrar explicações lineares por parte de Manuel Rosa é exactamente typica - e escrevo isto sem qualquer intenção de o offender - de um amador que accredita existir uma explicação logica e linear para tudo. Mas a verdade é differente, e por vezes o dever maior de um historiador depois de analysar a documentação é admittir isso mesmo - que não sabemos o sufficiente, que o illogico phenomeno analysado não tem explicação, que a razão que levou certa pessoa a fazer certa escolha não é conhecida. E simplesmente aceitar essa conclusão. Poderemos - devemos mesmo - suggerir certas possiveis explicações, mas o que o confrade Rosa faz, com a sua theoria a transbordar de "CIFRAS SECRETAS" em maiusculas tão ao seu gosto, está longe do admissivel. Esse seu universo de secretismos, em que todas as cousas são symbolos de outras cousas, em que tudo é occulto e arcano e machiavellico, é typico das "historias" cheias de intrigas, de machinações e dos mais variados symbolismos que pessoas ingenuas que julgam ter tudo uma explicação logica frequentemente acabam por ter que inventar "em busca das provas" que possam explicar o inexplicavel. Porque não admittir que não temos fontes historicas sufficientes, em vez de presumir toda uma causalidade com total falta de espirito critico?

Posso dar-lhe um exemplo: o confrade Rosa pergunta porque teria Colombo assumido a lingua portuguesa como lingua materna, pois presume que tivesse elle sido ligure nunca o teria feito, e teria escripto no seu dialecto:

"(...) E era tão BURRO que não conseguiu aprender a escrever na sua língua materna, a qual seria o genovês, tendo escrito para genoveses num Castelhano aportuguezado".
[http://www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=301713#lista]


Mas o nosso confrade parte aqui - como quasi sempre - de um presupposto que está à partida errado. Porque deveria Colombo ter escripto em italiano apenas por ser da tal cidade da Liguria? Não o ter feito não prova nada. Accredite que os escriptores classicos que descreveram o phenomeno do bilinguismo do imperio romano ou a diffusão do grego no Mediterraneo oriental na era do imperio byzantino não estariam seguramente de accordo com Rosa; e quantos emigrantes portugueses nos nossos dias não preferem falar outra lingua que a sua lingua materna, mesmo quando estão em Portugal?

Apparentemente Colombo ao escrever em castelhano não terá utilizado nenhuma forma italiana, e quando apparentemente não conhecia a palavra castelhana utilizava uma portuguesa. Que prova isto? Que era natural de Portugal? Ora imaginemos tres exemplos no seculo XV:

1) um natural da Servia que depois de ter vivido varios annos na Russia, passa à Ucrania. Ao escrever em ucraniano utiliza, de vez em quando, palavras russas em vez de ucranianas;
2) um natural da Bavaria que depois de ter vivido varios annos na Dinamarca, passa à Suecia. Ao escrever em sueco utiliza, de vez em quando, palavras dinamarquesas em vez de alemãs;
3) um natural da Liguria que depois de ter vivido varios annos em Portugal, passa a Castella. Ao escrever em castelhano utiliza, de vez em quando, palavras portuguesas em vez de italianas...

Sinceramente: algum dos exemplos lhe parece estranho? Posso imaginar varias boas explicações para tal procedimento, que todas começam com as phrases "talvez pense...", ou "talvez queira...". E esse "talvez" é fundamental: é o tal mysterio de que falo. Os motivos das pessoas - felizmente para a humanidade e infelizmente para os historiadores - não são sempre racionaes e lineares; não somos machinas programmadas ad aeternum; muitas vezes comettemos actos illogicos ou imprevisiveis, ou mudamos de attitude. Eu proprio ao escrever evito grande numero de palavras portuguesas simplesmente por não gostar dellas. Como quer calcular isto?

O confrade Fertelde acaba de citar Rumeu de Armas e essa phrase aqui tão repetida por Rosa. Mas repare no condicional importantissimo d'essa phrase. Pellos escriptos de Colombo poderiamos talvez ser levados a essa conclusão, mas exactamente por existir outra documentação essa these perde peso. Os escriptos em si pouco significam: quantos portugueses não escreveram obras em castelhano, &c? Pellos "Los Siete Libros de la Diana" Jorge de Montemor seria castelhano. Pello "Libro da Imparare Giocare a Scachi..." Pedro Damiano seria italiano. E pellas "Cantigas de Sancta Maria" Affonso X de Castella seria lusitano. Se a unica obra escripta d'esse rei que conhecessemos fossem essas trovas, poderiamos inferir que este era afinal "nosso", e fabricar engenhosas theorias que pudessem explicar quem era e como lograra ser rei de Castella? É isto fundamentalmente que Manuel Rosa faz ao tentar explicar as origens do almirante.

A verdade é que cada um tem as suas razões para adoptar completamente outra lingua ou vehementemente continuar a utilizar a sua lingua materna, ou alternar entre varias linguas. Como podemos nós ignorar a hypothese de que Colombo pura e simplesmente achou a lingua portuguesa mais bella que o seu dialecto ligure? Ou que a preferiu por a julgar mais cosmopolita? Que por razões de esthetica, ou de prestigio, ou qualquer outra, preferiu outra[s] lingua[s], assim como certos dialectos de latim ou grego eram preferidos na Antiguidade, e outras linguas foram preferidas n'outras epochas bem mais recentes? Li uma vez na bibliotheca real de Copenhague o original de uma alliança firmada em Março de 1618 entre o rei da Dinamarca Cristiano IV e um rei do Ceilão contra os portugueses, que n'essa epocha tentavam a conquista da ilha. Esse tractado foi escripto no Ceilão numa estranha mescla do castelhano entendido pello embaixador da Dinamarca e a lingua portuguesa entendida pello rei do Ceilão. O confrade Fertelde faz ideia do numero de documentos dos seculos XVI e XVII escriptos por poderes asiaticos em estranhas variantes locaes da nossa lingua? Por vezes é difficil saber apenas pella lingua se se trata de um capitão ou comerciante lusitano radicado na India ou um asiatico. Esta é a realidade da lingua. O que não podemos como investigadores serios é inferir que Colombo era natural de Portugal por ter usado vocabulos portugueses em textos em castelhano, ou não lhe admittir uma origem italica por nunca ter escripto em italiano. Quanto a Colombo apenas nos resta admittir que, à falta de documentos explicitos, não sabemos porque assim o escolhe fazer.

[A titulo de curiosidade, para os confrades do forum: li ainda em Copenhague um tratado entre Filipe IV de Espanha e o mesmo rei da Dinamarca de Janeiro de 1641 em que o primeiro se compromette a pagar uma divida de 100.000 rigsdalere ao segundo com sal de Setubal uma vez reconquistado Portugal. E li em Estocolmo o tratado assinado em Julho do mesmo anno por Francisco de Sousa Coutinho, embaixador de D. João IV aos paises nordicos que, depois de ter sido rejeitado pello rei da Dinamarca em Abril, encontrou na inimiga d'este, a Suecia, um fornecedor de canhões e mosquetes para a guerra da Acclamação. Por essa razão podemos hoje ver os magnificos vasos Ming, presentes do embaixador, no Östasiatiska Museet em Estocolmo, e por essa razão podemos ver um canhão sueco no castello de São Jorge em Lisboa.]

Resumindo: tudo isto me faz lembrar a celebre ultima palavra de Charles Foster Kane. Como quer calcular semelhantes cousas? Imagina o numero enorme de causalidades incognitas com que o historiador lida? O fallecido Hans Morgenthau, judeu alemão nos Estados Unidos desde 1937 e um dos maiores estudiosos de relações internacionaes, ao citar o celebre dicto de Blaise Pascal de como a historia universal teria sido differente se o nariz de Cleopatra tambem o tivesse sido, collocou depois a questão: "How do you systemize that?". E a resposta é que é impossivel. O calculo torna-se igualmente impossivel: as variaveis são quasi infinitas. E o numero de narizes de Cleopatra ao longo da historia universal é astronomico.

Não ter documentação sufficiente é uma licção de humildade: o investigador "serio e diligente" admitte então nada saber, e não poder explicar, e apenas faz leves suggestões. Quanto aos outros, como dizia o Ecclesiastes e voltando ao thema d'este topico, é tudo vaidade.


Cumprimentos, e obrigado pello seu commentario,
Anachronico


PS. Se ainda não leu, recommendo-lhe, para melhor entender a minha posição puramente theoretica perante o methodo argumentativo de Manuel Rosa, alguns dos meus outros topicos.
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