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Mavasc 19-04-2012, 23:09
tmacedo 19-04-2012, 23:05

RE: A. Luciano: sobre os "historiadores vaidosos" e a realidade da historiographia 19-04-2012, 13:37
Autor: Anachronico      [responder para o fórum]
Caro A. Luciano,

Eu nunca affirmei ser a eschola synthetica atrasada ou caduca. Eu proprio pertenço à eschola synthetica. Tambem nada affirmei que o possa possivelmente levar a pensar que as "novas tendencias historiográficas" sejam "apenas a manifestação das já velhas tendências racionalistas e positivistas". Escrevi claramente que "Desde os primeiros annos do seculo XX os germanicos e particularmente os escandinavos desenvolveram uma methodologia analytica positivista". Logo esta é anterior à eschola dos Annales, que data da decada de 1930 e ganhou peso depois da guerra. A dichotomia Annales/positivismo não existe, o que existe é, tal como na politica, todo um espectro de variadas escholas e suas variantes. Apenas suggeri essa dichotomia para illustrar o argumento, pensando que a bom entendedor meia palavra bastasse; talvez me tenha enganado. A nova tendencia historiographica a que me refiro é, como escrevo, "a presente geração de jovens historiadores quer no campo latino, quer no campo germanico/nordico [que] está cada vez mais influenciada pela eschola anglo-saxonica, que é, por assim dizer, "the best of both worlds". Isto é: exactamente menos influenciada pello positivismo extremo que as escholas germanica/escandinava. O confrade fez uma leitura errada.

Com o meu commentario apenas lhe tentei mostrar [vejo não ter conseguido] que o synthetismo tem os seu limites se não acompanhado pella analyse, e que a profunda analyse que Manuel Rosa nunca fez é tambem por vezes necessaria. Eu acho o classico positivismo escandinavo [agora em abandono] excessivo. Mas tambem e especialmente nos annos 1960/70 foram escriptas muitas syntheses no mundo latino por vezes pessimamente documentadas: leitura muitas vezes agradavel, sem duvida, mas onde a rhetorica sempre e apenas tenta esconder a falta de provas, tenta crear uma cadeia de eventos e de causalidade apparentemente [emphase em apparentemente] provavel mas na realidade apenas mais ou menos plausivel. Um dos problemas da historia como interpretação e da historia total dos Annales é que os "franceses" conhecem obviamente as limitações da sua methodologia mas muitas vezes apenas as suggerem. Ora para um bom entendedor, treinado n'estas cousas, meia palavra basta; mas para o amador frequentemente não. Os Annales foram [e ainda são] escriptos por academicos para academicos. Mas foram escriptos de forma tão agradavel que - mais que os germanicos - podem ser facilmente lidos pella mais educada parte da população geral, que não se aperceberá talvez das limitações e dos erros comettidos pellos "franceses" que elles proprios e nós outros reconhecemos. Esses interessados amadores mais tarde - por exemplo n'este forum - muitas vezes falarão de cousas que não entendem bem baseados n'uma interpretação sua de outra interpretação à partida limitada. Ora que tudo isso faz certamente parte da vida na conversa allegre e animada sobre elevados themas com que nós latinos tanto gostamos de passar o tempo - conversa essa que os germanicos não practicam da mesma forma - não disputo. Mas que a conversa séria e carrancuda dos teutonicos em materia de historia escripta é mais fidedigna está totalmente fora da questão. Não queira discutir isso comigo.

A methodologia na sua forma mais simples reduz-se às questões fundamentais: "que perguntas faz o historiador a este problema, que methodo e fontes escolheu, e que resultados poderia ter obtido se tivesse feito outras perguntas, escolhido outro methodo e outras fontes?". Estas são sempre as primeiras perguntas que colloco ao ler qualquer estudo historico que seja. E não tenho normalmente problemas em ver as limitações methodologicas, as suas consequencias - pontos fortes e fraccos - e logo o valor absoluto e o valor relativo applicado de estudos de historia, quer se trate dos classicos Annales &c da eschola francesa quer se trate de obras da eschola igualmente classica critica de Erslev. Mas accredite que pouquissimos dos frequentadores d'este forum o poderão fazer, incluindo mesmo o confrade Luciano. A theoria critica historica é uma disciplina propria dentro da historia; existem historiadores que não fazem outra cousa. Tudo o que tenho escripto é uma versão extraordinariamente simplificada de apenas algumas das ferramentas dos historiadores, e o confrade não faz ideia - e não faz mesmo, não tenha duvida - da importancia da methodologia e da theoria escolhidas para o resultado do estudo historico. O exemplo extremo será a differença entre o "hermeneutismo" de Rosa [a sua tão celebre "regra" que segue cegamente excepto quando não lhe convem] e o positivismo de, por exemplo, Ângelo da Fonseca quanto este examina a taxa de juros de Banco de São Jorge em 1573. Esta differença é gritante, não concorda? Este ultimo prova com phrases como

«Annual rates of return are defined as R[t] = (Da[t] + P[t+1] - P[t])/ P[t], where Da[t] = discounted cash dividend and P = the price of the luoghi; dividend contribution is Da[t] / P[t]; price appreciation contribution is (P[t+1] - P[t])/ Pt; all multiplied by 100.»

o valor real do problema em questão; mas quantos appreciarão uma obra com semelhantes phrases espalhadas um pouco ao longo das paginas? E no entanto este confrade resolveu este problema, enquanto Manuel Rosa nos dá apenas uma bella estoria cheia de interpretações forçadas. E este é fundamentalmente o grande problema da "historia como interpretação": qual é o grau de interpretação que estamos dispostos a tolerar? Sem a devida analyse "seca e geometrica" como lhe chama o confrade Hirão, corremos o serio risco de transformar a these em simples exercicio de eloquencia. Um methodo excessivamente analytico torna-se mechanico e esteril [castrado, como muito bem diz]; mas o contrario acaba por ser uma simples tentativa de seduzir o leitor. Imagine ser accusado de ter comettido um crime de que fosse innocente. Que preferiria: um systema legal altamente analytico, onde certamente seria absolvido, ou um systema onde ter um advogado charismatico e eloquente e com absoluto dominio da rhetorica fizesse toda a differença? É d'isto fundamentalmente que falamos: o reu é a Historia.

Comparei n'outra mensagem o que Manuel Rosa faz com o querer ler a Biblia no vernaculo sem ter os minimos conhecimentos de philologia, dogmatica e exegese. Porque julga o confrade Luciano que na exegese Biblica existe a chamada alta critica? Porque julga o confrade Luciano que a leitura de outros documentos historicos não merece a mesma atenção critica?

Quanto a psychologia e sociologia serem sciencias... poderão ser, com alguma boa vontade, mas estarão sempre - assim como a anthropologia - muito mais longe de ser sciencias exactas que a historia. Porque a historia não lida como escreve "essencialmente com comportamentos humanos". Esse erro de percepção é frequentemente affirmado por amadores mas não deixa de ser errado por isso. Para os comportamentos humanos temos exactamente a psychologia, a anthropologia, a ethnographia, a sociologia. A historia lida com documentos historicos. Nada mais. O que quero dizer é que a historia tenta certamente explicar acontecimentos historicos - e não prorpiamente comportamentos humanos, não somos psychologos - mas unica e exclusivamente a partir de fontes historicas escriptas. À falta de documentos historicos escriptos, seja pergaminho, papyro ou inscripções em pedra, abandonamos litteralmente o campo aos nossos queridos primos os archeologos, com quem tambem temos tantas e tão interessantes discussões. O que não podemos fazer, para explicar por exemplo o comportamento de certo Infante quando este tinha 13 annos, é convidar uma equipa de psychologos, anthropologos e sociologos e a emittir um parecer - como alias o recente e triste caso na Noruega, onde dous exames psychologicos a certa pessoa tristemente celebre resultaram em dous resultados totalmente oppostos, bem mostra. O fosso que separa a historia e a archeologia da psychologia &c é exactamente a possibilidade de se poder adaptar a practicas scientificas bastante mais exactas. E não falamos apenas das modernas provas de carbono 14, de ADN, de isotopos &c; os positivistas do inicio do seculo XX não conheciam nem uma cousa nem outra.

A eschola positivista/analytica propõe assim uma historia-sciencia tão exacta quanto possivel, a vertente mais extrema aceitando mesmo não se pronunciar sobre uma variedade de themas sobre os quaes não temos sufficientes fontes. Isto parece-me obviamente radical. E comprehendo perfeitamente que para a grande maioria dos confrades para quem a agradavel leitura da obra é tão importante como as conclusões a que esta chega, mesmo a variante mais atenuada do positivismo pareça "seca e geometrica" como lhe chama o confrade Hirão. O curto exame mathematico de Ângelo da Fonseca à tal taxa de juro está certamente longe do bello estylo vivo de um Braamcamp Freire [que obviamente muito admiro como historiador]. Mas não deixa por isso de chegar a um resultado notavel e com applicação practica - e nem toda a historia analytica implica semelhantes formulas, ou o seu uso exclusivo.

Outros tempos houve em que o historiador era por definição um amador intelligente e culto e de escripta eloquente - o typico "gentleman historian" do seculo XIX. Mas difficilmente veremos hoje outro Herculano, apesar de figuras como elle permanecerem no imaginario commum, e a monographia historica continue por muitos a ser julgada tambem por suas qualidades litterarias. E sinceramente tenho pena de que esses grandes vultos, com todas as suas idiosyncrasias, difficilmente voltarão a apparecer. Mas a historiographia está cada vez mais especializada, e mesmo a propria formação classica das pessoas não é hoje o que era. Isto reflecte-se nas monographias academicas escriptas hoje, muito longe de possuir a individualidade por exemplo dos citados Herculano e Braamcamp Freire. Hoje tudo se assemelha: apesar de existirem ainda significantes differenças entre os cursos de historia em varios paises existe uma formação muito mais uniforme que meio seculo atras - uma tendencia que a continuante globalização certamente e infelizmente acentuará. E digo infelizmente porque a differença é certamente importante: é por exemplo ao descobrir a historiographia escandinava classica que nos apercebemos bem das nossas limitações - e vice-versa. Hoje tudo é escripto na mesma lingua academica internacional, e todos escrevem sobre themas altamente especializados: as grandes historias syntheticas são escriptas por equipas de especialistas. Hoje o historiador é mais um producto do systema, um especialista certamente, mas quasi um burocrata, ou outra especie de operario no seu escritorio. Mas por ser anachronico não sou o velho do Restello: felicito-me e aos meus collegas por produzirmos quantidades de sabedoria nova nunca antes vistas, tudo resultados de escrupulosas investigações e accessiveis a todos. Muito mudou de facto no ultimo meio seculo, quando as tradições francesa e germanica estavam no seu auge; mas nem tudo mudou para o peor. Enfim, com tudo isto apenas quis fazer ver ao confrade como é importante lembrar que a tradição mais hermeneutica e synthetica a que estamos accostumados, por muito mais agradavel de ler que seja, é tambem bastante menos fidedigna. N'isto como em muitas outras cousas o melhor será talvez o meio caminho, que é justamente para onde caminhamos com a eschola anglo-saxonica. E eu apenas digo que Manuel Rosa, neste "espectro politico" da historiographia, se posiciona no radical extremo-hermeneutismo. Manuel Rosa é basicamente um terrorista historico. Nada mais.


___________________



Por fim, como é meu costume e porque me diz respeito, vou apenas commentar uma sua phrase. Escreveu ontem:

"(...) indiquei dois motivos em que me baseava. Ora como é patente, apenas discordou de um dos motivos, nada dizendo sobre o outro (...)"

Entendo o que tenta insinuar. Caro confrade: a pura verdade é que tenho mais que fazer. Poderia por exemplo desintegrar a these de Manuel Rosa argumento por argumento - a heraldica, o idioma, &c, &c - se para isso tivesse paciencia. A verdade é que não tenho: não vale a pena. Alias, temos confrades no forum que o fazem muito bem, tendo todos elles outros conhecimentos que me faltam, e que me dão grande prazer ler. Mas imagine outro confrade que não o Luciano ou Rosa que avança com dez argumentos a favor de uma these fantastica. Eu talvez possa ver que oito dos argumentos carecem de qualquer validade e que quatro d'estes são mesmo indecentemente perversos. Se commentar apenas dous d'elles, implicará isso que concordo tacitamente com os outros oito?


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