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A. Luciano: sobre os "historiadores vaidosos" e a realidade da historiographia » |
Anachronico | 18-04-2012, 21:11 |
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| tmacedo | 19-04-2012, 23:05 |
| A. Luciano: sobre os "historiadores vaidosos" e a realidade da historiographia | 18-04-2012, 21:11 |
| Autor: Anachronico [responder para o fórum]
Caro A. Luciano, Sobre o que escreveu no seu topico "Colombo/Colón - apreciações sobre a controvérsia no fórum": Uma phrase sua merece replica por me dizer respeito: "(...) tenho a percepção de que os historiadores são vaidosos e competitivos - talvez por saberem bem que precisam de subsídios e patrocínios para poderem publicar neste mercados culturalmente deprimidos da península" [ http://www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=302928 ] ____________________ Deduzo que o confrade não é historiador. Deduzo ainda que sabe pouco sobre a realidade do processo de pesquisa nos institutos de investigação scientifica de hoje. E deduzo tambem que sabe ainda menos sobre a realidade editorial - especificamente quanto a obras de historia - não apenas em Portugal mas a nivel europeu. Posso estar errado quanto a estas deduções, mas n'esse caso não entendo porque escreveu o supra citado sabendo ser falso. Um verdadeiro historiador, se me permitte o termo, não publica livros de estorias para o povo da nação à la Isabel Stilwell: publica para uma comunidade academica cada vez mais internacional. Se o talento para tanto chegar, verá as suas theses de mestrado e doutoramento publicadas. Não sei em que é formado [isto apenas para dizer que não creio que seja em historia] e não gosto de ter que voltar a affirmar o obvio - sinto-me parvo, no significado latino - mas o trabalho de um historiador "serio e diligente" hoje em dia consiste cada vez mais em publicar regularmente os resultados de suas pesquisas como artigos academicos. Não sei se sabe, mas o historiador, como qualquer outro a trabalhar por conta de outrem, está obrigado a certas quotas de producção, o que para o historiador equivale a dizer publicação. As exigencias de publicação hoje não são as que eram ha meio seculo, ou mesmo ha duas decadas atras: se reparar, o rythmo de publicação de artigos academicos tem augmentado exponencialmente nas ultimas decadas. Esta é a realidade actual, pois é assim que as universidades & institutos de investigação scientifica, no ambiente cada vez mais internacional dos tempos em que vivemos, preferem comparar-se entre si e medir o seu successo: infelizmente é mais facil medir a quantidade de publicações que a qualidade das mesmas. Esta evolução tem sido muito discutida e criticada em meios academicos, como talvez saiba. Felizmente tem pello menos duas grandes vantagens. Uma d'ellas é que os muitos artigos produzidos hoje, graças à evolução technologica, cada vez mais se encontram accessiveis, não apenas a collegas mas tambem ao publico geral interessado, por via digital frequentemente gratuita. Se por vezes é necessario um pagamento para ter accesso aos artigos, muitas outras publicações disponibilizam a leitura gratuitamente. Se me permitte um certo exaggero, um interessado hoje em dia não perde tempo a ler monographias a não ser que não tenha lido o fundamental, os classicos: para seguir a mais recente investigação sobre qualquer thema basta ler os mais recentes artigos publicados, cujas conclusões de qualquer forma farão parte de uma eventual futura monographia do auctor. Ora a publicação de artigos academicos nada tem que ver com os "mercados culturalmente deprimidos" que suggere, nem com vaidades. É uma simples questão de obrigação profissional, de merito, e quando muito do orgulho que todos temos em executar um bom trabalho, seja elle de que natureza for. Por esta mesma razão indiquei a Manuel Rosa - como alias tambem o fez pello menos o confrade Ângelo da Fonseca - que deveria ter analysado methodicamente cada elo da sua argumentação e submettido os resultados como uma serie de artigos. Não posso obviamente esperar do confrade Rosa que possa financiar de seu proprio bolso uma investigação chimica & biologica em laboratorio, tal como datação de materiaes &c. Mas posso esperar analyses quantitativas e qualitativas diplomaticas, prosopographicas, &c, &c. Este nosso confrade passou apparentemente vinte annos a pesquisar o assunto. Ora os meus primeiros artigos publicados escrevi-os quando ainda frequentava os primeiros annos do curso; e vinte annos é o sufficiente para se publicar no minimo meia duzia de profundas analyses a varias questões. E eis a segunda grande vantagem do systema de publicação de artigos actual: se as conclusões das diversas analyses relacionadas indicarem a validade ou possibilidade de uma these innovadora, não terá então o historiador grandes difficuldades em ver uma monographia ser publicada. Isto tambem nada tem que ver com os "mercados culturalmente deprimidos" que suggere. E muito menos com vaidades. É tudo uma questão de documentação previa, que, se coherente e methodologicamente satisfactoria, logo facilitará esses "subsídios e patrocínios" de que fala. Sem querer menosprezar a realidade de que algumas theses suscitarão maior interesse editorial que outras, acaba tudo por ser uma questão da competencia - ou seriedade e diligencia, se preferir - do historiador. O confrade Luciano apparentemente não tem noção da realidade editorial em muitos paises da Europa. Em poucos paises se cultiva a historia e se publicam dissertações, monographias academicas e livros populares sobre historia como em Portugal; em poucos paises a historia occupa um semelhante lugar na sociedade, no imaginario da população, no quotidiano que se vive como em Portugal. Tenho discutido isto com varios historiadores estrangeiros, que em geral apenas podem sonhar com semelhantes condições nos seus paises de origem - paises como a Hollanda, a Belgica, a Suecia e outros semelhantes em numero de habitantes a nós, onde apesar das frequentemente melhores condições de pesquisa para o historiador e do maior poder de compra da população, o numero relativo de publicações sobre historia é muito inferior ao registado entre nós devido ao pouco interesse das populações pella materia [a grande excepção a esta regra sendo a Inglaterra, com um interesse pella sua historia comparavel ao nosso mas com uma população e condições de investigação bem differentes das nossas]. Um exemplo: o numero de monographias e periodicos sobre estirpes, linhagens, familias e genealogias na livraria Guarda-Mor - e, fundamentalmente, mesmo o proprio Geneall - é bem indicativo d'este nosso interesse vivo mas quasi morbido pello nosso passado morto: mais de trezentos titulos publicados nas ultimas decadas apenas sobre as mais variadas familias - fora todas as outras categorias - é absolutamente estonteante; não me espantaria se os austriacos, os checos ou os suecos apenas tivessem um decimo d'esse total. Para publicar historia em Portugal não é necessario ser nem vaidoso nem muito competitivo como suggere: basta fundamentalmente escrever, porque a vontade de comprar existe; comparado com todos os paises que mencionei Portugal ainda vive mentalmente no universo de Cervantes e do seu Dom Quixote. Mesmo falando de dissertações academicas Portugal está muito à frente de, por exemplo, os paises nordicos, porventura os paises europeus onde a relação entre poder de compra e interesse por historia é mais assymetrica. Julgo não andar longe da verdade se affirmar que o numero de dissertações de mestrado e doutoramento publicadas em Portugal ultrapassará a somma total das publicadas na Escandinavia. Isto nada tem que ver com "subsidios e patrocinios"; o "mercado culturalmente deprimido" não é o nosso. Não tenha duvidas, confrade Luciano: em poucos paises do mundo será tão relativamente facil e pouco competitivo publicar trabalhos sobre historia como no nosso. ____________________ Voltando ao assumpto do seu topico "Colombo/Colón...": que fez Manuel Rosa? Uma "investigação" privada para ao fim de vinte annos apresentar miseras quatrocentas paginas a "provar" uma these theoricamente tão importante como a verdadeira nacionalidade de Christovão Colombo. Como escrevi ao confrade Rosa, vinto annos de estudos seriam sufficientes para uma these de doutoramento de pello menos o normal dobro d'essas quatrocentas paginas. Mas a differença não é o volume da obra: é o juri que a approva. Para o doutoramento temos que convencer alguns dos maiores peritos na materia; para o "Colombo Português" basta o editor que julga ver sufficientes vendas. Talvez a analyse dos varios elementos da sua these mostrasse a Manuel Rosa a impossibilidade da mesma. Já me succedeu. Como a methodologia das minhas analyses era infallivel, tive que abandonar a these - ou melhor, adoptar outra que pudesse aproveitar as analyses feitas e que estivesse de accordo com as mesmas. É este o trabalho do historiador: analysar, e apenas depois tirar conclusões. Manuel Rosa perverte o trabalho do historiador ao invertir o processo, ao partir da conclusão para escolher as "provas" que mais lhe dão jeito. Dous exemplos fantasticos do opportunismo de Manuel Rosa n'este forum: "No fim de tudo isto, não existe um só documento que prove o casamento do "conto de fadas" da história e na FALTA DA PROVA, aplica-se a regra, a lógica e o bom senso. E tudo isso implica que o Almirante era nobre com brasão de armas quando casou em 1479 com a Filipa Moniz". [http://www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=301900#lista] "As armas de Colón foram construidas para servir de ESCUDO à identidade verdadeira e esconder a sua linhagem. Por isso vamos ter que fugir à REGRA e utilizar um POUCO de IMAGINAÇÃO para ver se consegue-se desenrolar o segredo por detrás das armas." [http://www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=295972#lista] Então no que ficamos? Applicamos a "regra" quando nos convem e fugimos à "regra" quando isso é mais opportuno? Ora assim qualquer cousa é possivel "provar"... Tambem as analyses de Manuel Rosa - se este as tivesse feito - teriam sido dignas e meritorias se methodicas e correctas - porque analyses historicas quando criteriosas, methodicas e correctas não mentem; apenas podem ser mal interpretadas ou pervertidas. Mas o que Manuel Rosa faz é exactamente o contrario: affirma uma these e quer depois a todo o custo provar a mesma, mesmo que isso implique perverter talvez parte da documentação e da "analyse", e certamente toda a argumentação logica para o fazer. E a isto chamo eu vaidade. Mas não chamo a Manuel Rosa um historiador. Que lhe chama o confrade Luciano? ____________________ Um ultimo commentario: o confrade Luciano, que obviamente não é historiador, ousa escrever o seguinte: "Manuel Rosa errando algumas vezes o pormenor vai oferecendo interpretações possíveis e coerentes - lembro que história é isso mesmo, interpretação - enquanto o anacrónico confrade António Taveira, acertando por vezes em particularidades foi sempre incapaz de oferecer uma visão geral que fizesse sentido (...)" [http://www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=303247#lista] Por aqui se pode ver claramente que o A. Luciano, tal como Manuel Rosa, pouco entende de historia. A phrase citada reproduz de forma muito simplificada - historia é interpretação - o pensamento da eschola dos "Annales", que foi tambem fundamentalmente a nossa durante grande parte do seculo XX. Não sei se o confrade o sabe, mas esta está longe de atingir o rigor exigido pella eschola germanica, e ainda menos pella eschola escandinava. Com os "Annales" toda a historiographia do sul da Europa, grosso modo, se tornou frouxa do ponto de vista critico e riquissima do ponto de vista synthetico. Não sei quantas obras de historia germanicas ou escandinavas leu e se conhece a differença; recommendo vivamente a sua leitura, porque é outro mundo, outra maneira de pensar historia - frequentemente inhospita em toda a sua esterilidade analytica, totalmente em contraste com a historia viva francesa [e "vivissima" de Rosa], mas seguramente muito mais exacta que esta, por muito seductiva que a tradição dos "Annales" nos pareça. O que quero dizer, de uma forma simplificada, é que no sul da Europa estivemos durante a maior parte do seculo XX habituados a sacrificar parte da veracidade comprovada e inquestionavel à "história viva". A historia, para si, é uma questão de interpretação; mas muito poucos historiadores das outras escholas estariam de accordo consigo. Estes diriam: historia é o que se pode provar sem sombra de duvida. Desde os primeiros annos do seculo XX os germanicos e particularmente os escandinavos desenvolveram uma methodologia analytica positivista extrema, que affectou a propria thematica da sua historiographia, pois nem para todos os themas possuimos fontes capazes de satisfazer as suas exigencias de documentação. Historiadores sul-europeus fazem assim frequentemente affirmações que nenhum germanico da velha eschola ousaria fazer à face da documentação. Por varias vezes tenho discutido com conceituados professores da eschola germanica e escandinava os meritos da historia synthetica vis-à-vis a historia analytica typicamente preferida por estes, que, se me permitte outro exaggero, sempre olharam com um certo desdem para as "invenções hermeneuticas" dos historiadores latinos, que para elles frequentemente mais pareceram ser "simples" sociologos; é uma discussão sem fim, um pouco como os debates Columbinos n'este forum. E curiosamente vejo-me n'este forum exactamente a repetir, de forma muito simplificada, os argumentos da eschola analytica. Perante o confrade Rosa, rendo-me totalmente ao campo escandinavo... Como não nos pode surpreender, a presente geração de jovens historiadores quer no campo latino, quer no campo germanico/nordico está cada vez mais influenciada pela eschola anglo-saxonica, que é, por assim dizer, "the best of both worlds". Mas o problema fundamental é este: o nosso caro confrade Manuel Rosa - assim como os manos sobre quem ainda não me pronunciei - não faz a minima ideia sobre qualquer eschola de critica historica ou qualquer theoria de historia. Manuel Rosa, com a sua celebre phrase "Eu afirmo a regra e por isso não preciso de documentos, basta a regra" tem de facto razão, mas não como esperava. Existem regras de logica que devem ser obedecidas para dar validade à affimação. E é graças a essas regras que não é necessario ler qualquer documentação para ver como a theoria de Rosa é falhada. A ser eu um "braço armado" como me chama, sou-o apenas da logica: eu affirmo essa regra da infallibilidade da logica, e por isso não preciso de documentos - basta a regra para ver que Rosa falha. O confrade Luciano escreve que a critica a Rosa foi "sempre incapaz de oferecer uma visão geral que fizesse sentido". Não sei se assim será. Mas sei que - na sequencia do que acabo de escrever - qualquer historiador da eschola analytica lhe responderia que à falta de documenção conclusiva mais vale frequentemente guardar silencio que conjecturar. Porque existe uma grande differença entre saber limitar a pura especulação a mera - e meritoria - inspiração do processo analytico, e fazer da pura especulação uma these sem documentação. A primeira chama-se historiographia; a segunda - essa sim - é a vaidade de que fala. O confrade Rosa e os manos, com todas as suas ridiculas, absurdas, patheticas e tristes theorias, "methodologias" e principalmente argumentações fallaciosas e tendenciosas, são amadores da peor especie, sem o minimo de preparação ou conhecimentos theoreticos, methodologicos ou mesmo logicos. Como tenho dicto, dando o amador Charles R. Boxer como exemplo - e outros confrades deram outros exemplos -, não é necessario ser formado em historia para ser um grande historiador. O que é necessario é um forte espirito critico, analytico e logico. E como não quero offender ninguem, fico-me hoje por aqui. Quanto a duas outras cousas que escreveu n'esse seu topico, posso ser succincto: oito, se escolhermos como primeira geração o nosso primeiro rei. E continua a ser litteraria, e não historica, a sua hypothese. Cumprimentos, Anachronico |
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