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A legitimidade de D. António, prior do Crato

Já antes de Alcácer Quibir, e com grande acuidade depois, a questão é recorrente e nunca mais foi encerrada. A comprová-lo está o tópico recente no Fórum do Genea Portugal Dom António I, 18.º Rei de Portugal?!...

O tema, que também nos apaixona, levou a que o reestudássemos. E os resultados são supreendentes. A todos passou despercebido o estudo recente de Luis de Mello Vaz de São Payo, " D. António Prior do Crato e outros cavaleiros da Ordem do Hospital de São João" (1997). Neste trabalho, tão discreto como fundamental, vem reproduzido um assento da Sé de Évora de 15 de Junho de 1544, descoberto pelo autor, no qual um baptizando é filho de uma escrava "de Pero Gomes sogro do Infante Dom Luis".

Diz Vaz de São Payo que "não podemos crer que o cura da Sé chamasse sogro ao pai da manceba do Príncipe, mesmo que com ele vivesse maritalmente". Também refere que este assento "fornece o nome, que não vimos mencionado em nenhuma outra fonte, do pai de Violante Gomes". Justiça seja feita, já em 1917 o Visconde de Faria, na 3ª edição da "Descendance de D. Antonio, Prieur de Crato" nomeava o pai da "Bela Pelicana" como "Pedro Gomes", não hesitando também em afirmar que D. António "era filho do casamento secreto de D. Luis, duque de Beja, com Violante Gomes, filha de Pedro Gomes." Não menciona a fonte em que se baseia. Mas poderá ser a mesma que está guardada no Arquivo de Évora.

Sustenta Faria que o casamento fora secreto por morganático, mas que a família real reconhecia D. António como um dos seus membros, vistos os cargos e prerrogativas que seus tios D. João III e que o cardeal D. Henrique lhe concederam. Quanto a sua mãe Violante Gomes, não era judia como com alguma conveniência se disse. Pertenceria à pequena nobreza, católica, tendo abandonado o mundo, com o consentimento de seu marido, e professado na Ordem de São Bernardo, morrendo ainda jovem no Mosteiro de Almoster.

Poderá concluir-se assim que D. António sucedeu a D. Sebastião, por preceder na linha sucessória ao cardeal. E então fora rei de direito, entre o fatídico 4 de Agosto de 1578 até à aclamação de seu tio D. Henrique, a 28 desse mesmo mês. Enredado nos interesses imperiais dos Áustrias, o cardeal D. Henrique pressionou o papa a pronunciar-se pela ilegitimidade do sobrinho. Mas o próprio Gregório XIII veio a revogar aquela sua declaração.

Afirmando sempre a legitimidade sustentada no casamento de seus pais, o prior do Crato foi rei após a morte do tio, a 31 de Janeiro de 1580, fazendo-se aclamar a 19 de Junho. De pouco lhe valeu o seu direito ante as tropas do duque de Alba, e as intrigas sustentadas pelo opulento Filipe II, que já se impusera ao titubiante cardeal-rei, e agora comprava adeptos desde Madrid a Lisboa.

Fugindo para França em 1581, as sucessivas manobras deste desventurado neto de D. Manuel I para retomar o país, foram infrutíferas. Morreu em Paris em 1595 deixando vários filhos, esses sim ilegítimos, o que à partida lhes dificultaria sustentar as pretensões paternas. A descendência de D. António, prior do Crato foi vastíssima. Damos-lhe conta de centenas de descendentes até à actualidade, que conseguimos apurar para a nossa Base de Dados. Radicados fundamentalmente na Holanda, Bélgica e Suiça, curiosamente não houve mais sangue deste príncipe que brotasse em Portugal.

Face à evidência descoberta por Vaz de Sampaio quanto à questão da legitimidade, parece sustentável elencar D. António entre os reis de Portugal. Mais do que isso, importa corrigir esse erro propositado na sua génese e repisado ao longo dos séculos.

2004-03-05